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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Clarice, uma vírgula, dois pontos:

Ao som do Silêncio.


Clamar. Clandestina. Claridade. Clarice.
Tinha alguma coisa naqueles olhos que pedia com clemência que por favor, não me dê respostas. Mas ninguém havia de fazer isto. Afinal ela era Clarice.
Descobri o sentido de sentir. E cheguei aos buracos da alma com palavras que lado a lado transformaram aquela palavra maior, que consta em dicionários e gramáticas, mas que é mais que um substantivo bonito: amor. Ela fez sarar as angústias das tardes inquietantes, quentes, tardes que floresciam junto com amores, saudades, choros.
Me fez abrir sorrisos, confundir o peito, enfrentar noites sem estrelas, chorar ininterruptamente e compreender não compreendendo. Fez-me descobrir no meu coração de menina-mulher uma Lory, Macabéa, Ana e Clarice. Porque a gente nunca deixa de ser menina e não chega a ser totalmente mulher. Porque recomeçamos a ser nós mesmas todos os dias, sempre. E isso sempre dói.
  Nara Gonçalves

sábado, 30 de abril de 2011

Abril.


I'm dancing barefoot
Heading for a spin
Some strange music draws me in
Makes me come on like some heroine
(Dancing Barefoot, Patti Smith)

(—café, cadernos, livros velhos, analgésicos, canções. Pagu indignada no palanque, que tentou ser metade do inteiro que sentia. Envelopes e cartões postais, P. Smith, Clarice, clarear o coração. Abraços, distâncias que fizeram espaços no dia, Woody Allen, London, London, vinil. Meu coração, não sei por que bate feliz quanto te vê. Menina legionária e um tal de Russo, que já fazia parte dela antes e pra sempre. Cinema, mais canções e textos tortos. Blues, guitarras, Elis. Color my life with chaos of trouble. Acender sorrisos, apagar tristezas. Uma menina que mora longe, mas escreve tão perto da alma. Fotografias, fitas, all star, bebida doce, travesseiro com gosto de lágrimas.  Aqueles “nós dois” com gosto de um só. Caio F., The Smiths, Doors, até mesmo o Cash. Abril me escorreu pelos braços em fuga.

sábado, 12 de março de 2011

Conversa de Botas Batidas*



Apaga com as pontas dos dedos esse desenho que fez com os pés na areia. Engole com a bebida doce as mágoas de um amor amargo. Feche a janela que vai ter neblina.
Finge um pouco que é feliz sozinho, esconde as tristuras, rasga os bilhetes, coloque um disco, tem Armstrong, Callas e aquela moça da voz ardida. Traz um café forte, tem chá verde também.
—[...] Quer passear na praia? Então vamos rápido que a chuva já vem. Leu aquele livro? Como é mesmo o nome, Triângulo das águas, do Caio F? Você ainda escreve? [...]
Só hoje, apenas hoje finge que nada aconteceu que teu coração é só mais um músculo que bate e bate e que nunca sentiu. Faz de conta que nunca chorou quando ouvia aquela melodia que tanto marcou vocês.
Folheia os cadernos, apague as marcas de dedos, as digitais dele.
Limpe os pontos de interrogação, pingue na alma gotas de afeto. E se puder, esqueça. Nem que seja só um pouquinho, mas esqueça.

                                                           Nara Gonçalves
*Canção dos Los Hermanos