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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Clarice, uma vírgula, dois pontos:

Ao som do Silêncio.


Clamar. Clandestina. Claridade. Clarice.
Tinha alguma coisa naqueles olhos que pedia com clemência que por favor, não me dê respostas. Mas ninguém havia de fazer isto. Afinal ela era Clarice.
Descobri o sentido de sentir. E cheguei aos buracos da alma com palavras que lado a lado transformaram aquela palavra maior, que consta em dicionários e gramáticas, mas que é mais que um substantivo bonito: amor. Ela fez sarar as angústias das tardes inquietantes, quentes, tardes que floresciam junto com amores, saudades, choros.
Me fez abrir sorrisos, confundir o peito, enfrentar noites sem estrelas, chorar ininterruptamente e compreender não compreendendo. Fez-me descobrir no meu coração de menina-mulher uma Lory, Macabéa, Ana e Clarice. Porque a gente nunca deixa de ser menina e não chega a ser totalmente mulher. Porque recomeçamos a ser nós mesmas todos os dias, sempre. E isso sempre dói.
  Nara Gonçalves

quinta-feira, 14 de abril de 2011

. Dois Passageiros



Tinha aquele som de ferro batendo contra ferro, abrindo caminho, assustando crianças e fazendo adultos distraídos se tornarem aquilo que nós sempre seremos nesta vida: passageiros.
Tinha corações feridos, despedidas sem lágrimas, alguns sonhos, outras tristezas. Alguns em movimento, com os lábios cheios de “Com licença, obrigado”. Outros deslumbrados.
Dois pares de olhos se entrecortavam no vaivém dos trens. As mãos nos casacos. Os corações unidos numa batida lenta.
—Quê que eu faço com os pedaços da nossa história?
—Guarda contigo, que eu vou te guardar comigo.
—Vai me escrever no teu coração?
—Sempre e todos os dias.
—Como nós ficaremos?
—Pela metade.
(O trem chegava. Pessoas se amontoavam na porta. Ele entrou só, mas havia mais um passageiro no vagão: o coração dela. Entre eles: Silêncio)
Nara Gonçalves


domingo, 20 de fevereiro de 2011

Suspendeu a mala e foi.



—Alô, Nara, aqui é o seu passado deixando recado. Desculpe toda a demora da minha visita que fez de mim seu deletério mais amargo. Perdoa também a minha amiga, dona Saudade, que fez do seu coração moradia permanente. Mas tenho notícias pra você, menina, que tem arranhões e cicatrizes por toda parte na parede da memória: Vou deixar de dormir ao teu lado e de te fazer passar noites em claro. Vai ver só, que todo esse veneno, moça, vai escorrer pra longe dos teus novos dias. A felicidade vai ir morar contigo agora. Vai respirar manhãs com gosto de sol. E quando eu passar por aquela porta, menina, tu irá suspirar fundo e sussurrar: Suspendeu a mala e foi.


sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Pra você Guardei



Ao som de Telegrama, Zeca Baleiro

             Estas palavras são dedicadas para uma garotinha que nunca “desistiu de anjos, fadas, cegonhas com bebês, ilhas gregas e happy ends cinderelescos”*. E príncipes encantados.
           


“Acho que você não sabe, mas te escrevi um poema. Nem sei por que estava pensando nisso, mas escrevi sim. Guardei numa caixa, daquelas que a gente tem medo de se livrar, pois pode sentir saudade depois.
Engraçado, eu te escrevi tantos poemas, você leu quase todos, mas encontrei justo aquele,que era pra ti num papel amassado, que nem chegou a ser totalmente seu. Bateu uma saudade de ver aquelas palavras bonitas caçadas em dicionários e poemas do Drummond. De te sentir, lendo cada verso do meu lado, batendo no meu ombro quando gostava sinceramente e pedindo cópias para colar no seu caderno. Senti saudade do medo que eu tinha de descobrir que era para você e descobrir o quanto eu queria poder colocar teu nome no alto da folha, pra poder rir depois. Ah, mas passou. Passou junto com a infância, com as ondas que varreram o mar e as brisas leves que bateram na janela. E ficou guardado junto com as folhas soltas, os outros poemas, cartas amassadas, conchinhas do mar na minha caixinha de sentir saudades.”
                                                                                                                             Naa Gonçalves

 *Conto Ao Simulacro da Imagerie, Caio F. Abreu

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Bem Me Quer




Ao som de Music when the lights go out, Pete Doherty


“Tinha esquecido do perigo que é colocar o seu coração nas mãos do outro e dizer: toma, faz o que quiser.” Caio F.


É tão triste não poder cantarolar ao lado de quem um dia te fez feliz. Quando as mãos ficam longe e o peito contrai de dor ou saudade, os olhos se encharcam. E o teu bem faz contigo um pouco de bem me quer, mal me quer e tira a presença pouco a pouco, como se tira as pétalas de uma delicada flor. As palavras somem e se perdem na confusão dos amores. Desaprende-se o riso, o toque, os tons, a cor dos olhos quando o sol se afundava no mar. A música preferida, o signo, o nome do meio.
Os sorrisos de estrela crescem, para esconder o afeto ausente. Pois não adiantava fazer prece, acender incenso, escrever, distrair. Tinha a sua presença confusa em tudo: nas horas tortas, na sensatez das palavras, no sabor das travessuras. Tinha você nas esquinas, nos livros, nos gestos, nos discos. E tinha um disfarce para a saudade, que vira companheira constante,daquelas que se pega no colo, acalenta, pra ela ficar miúda. Uma quase-irmã.
E mesmo assim pedia, rezava todo dia para passar. E não passava, não passará.

[Naa G.]